PRESSÁGIO (Knowing, 2009): O Apocalipse entre o Destino, o Acaso e o Luto Humano

Lançado em 2009, em pleno contexto de crises globais - colapso financeiro de 2008, avanço das discussões sobre aquecimento global, medo do terrorismo e ansiedade coletiva diante do futuro - Presságio (Knowing), dirigido por Alex Proyas e estrelado por Nicolas Cage, é um filme que vai muito além do rótulo de “ficção científica apocalíptica”. Trata-se de uma obra profundamente simbólica, que dialoga com mitologia bíblica, filosofia do determinismo, angústias existenciais modernas e processos psicológicos de luto e trauma.


Embora tenha sido recebido de forma ambígua pela crítica à época, Presságio amadureceu com o tempo, sendo hoje frequentemente revisitado como um filme que ousou misturar terror cósmico, religião, ciência e psicologia, numa narrativa sombria e desconfortável.

Contexto Sócio-Histórico: O Medo do Fim no Século XXI

O início do século XXI foi marcado por uma sensação difusa de colapso iminente. Após o 11 de setembro de 2001, o cinema passou a refletir um mundo em constante estado de alerta. Filmes-catástrofe, narrativas apocalípticas e histórias sobre o “fim dos tempos” ganharam força como espelhos de um medo coletivo: a perda de controle.

Presságio surge nesse caldo cultural. Diferente de filmes apocalípticos tradicionais, ele não aposta na ação heroica como solução. Aqui, não há como evitar o fim. Essa ideia ecoa profundamente num mundo que, em 2009, começava a perceber que nem a ciência, nem a tecnologia, nem o progresso garantiriam salvação absoluta.

A Trama: Números como Profecia e Maldição

A história gira em torno de John Koestler, professor de astrofísica do MIT, viúvo e emocionalmente distante do filho, Caleb. Quando uma cápsula do tempo é aberta após 50 anos, John descobre que uma sequência numérica aparentemente aleatória prevê com precisão grandes desastres do passado - e aponta para eventos futuros, culminando no fim da humanidade.

Os números funcionam como um oráculo moderno, substituindo pergaminhos sagrados e profecias bíblicas por códigos matemáticos. Essa escolha narrativa é crucial: ela traduz o medo contemporâneo de que até a racionalidade científica possa ser insuficiente diante do caos.

Simbolismos Bíblicos e Apocalípticos

O filme dialoga diretamente com o Apocalipse bíblico e com tradições judaico-cristãs:

Crianças como profetas evocam passagens bíblicas em que a verdade divina é revelada aos inocentes.

Os seres misteriosos, frequentemente interpretados como anjos ou alienígenas, remetem a figuras como os mensageiros de Sodoma e Gomorra - entidades que salvam os justos antes da destruição.

A luz intensa que cega aqueles que tentam impedir o plano lembra punições divinas descritas no Antigo Testamento.

As pedras negras simbolizam condenação e rejeição do conhecimento sagrado, em contraste com a “pedra branca” da absolvição em tradições antigas.

A explosão solar, responsável pelo fim do mundo, atua como um paralelo moderno às pragas finais, purificando a Terra pelo fogo.

O plano final, com as crianças diante da Árvore da Vida, é uma imagem clara do paraíso restaurado - um novo Éden após o colapso.

Determinismo versus Acaso: O Debate Filosófico no Coração do Filme

Presságio estrutura sua narrativa a partir de um dos debates mais antigos da filosofia: somos livres ou tudo já está escrito?

Determinismo


Filósofos como Demócrito, Spinoza, Hobbes e até Einstein defenderam que o universo segue leis rígidas de causalidade. No filme, os números representam essa lógica: tudo já aconteceu ou acontecerá, independentemente da vontade humana.

John Koestler inicia a história como um defensor do acaso - “coisas ruins simplesmente acontecem”. Essa postura é típica do niilismo moderno, uma tentativa de anestesiar o sofrimento ao negar qualquer sentido profundo.

Indeterminismo e Liberdade


Por outro lado, pensadores como Karl Popper, Charles Peirce, Jean-Paul Sartre e Robert Kane sustentam que o acaso genuíno e a liberdade existem. O filme tensiona essa ideia ao sugerir que, mesmo dentro de um destino fixo, ainda há escolhas significativas - como aceitar, cuidar e amar, mesmo diante do fim.

A Psicologia do Luto e da Ansiedade Existencial

Sob a lente da psicologia, Presságio pode ser lido como a jornada de um homem atravessando o luto complicado. John perdeu a esposa de forma abrupta e nunca elaborou plenamente essa perda. O alcoolismo, o distanciamento afetivo e o excesso de racionalização científica funcionam como mecanismos de defesa.

A obsessão pelos números pode ser compreendida como apofenia - a tendência humana de enxergar padrões onde talvez só exista caos. Psicologicamente, isso oferece uma ilusão de controle diante do imprevisível.

Ao longo do filme, John atravessa simbolicamente os estágios do luto descritos por Kübler-Ross:

Negação (ceticismo inicial),

Raiva (frustração diante da impotência),

Barganha (tentativas desesperadas de mudar o destino),

até chegar à aceitação.


O momento em que ele permite que o filho siga com os seres “salvadores” é um dos mais dolorosos do filme - e também o mais terapêutico. Ele finalmente compreende que amar também significa deixar ir.

Terror Cósmico e Horror Existencial

Diferente do terror tradicional, Presságio se aproxima do terror cósmico, no qual o verdadeiro horror não é um monstro, mas a constatação da insignificância humana diante de forças incompreensíveis.

Essa ideia dialoga com Lovecraft e com o medo moderno de que o universo seja indiferente à dor humana. No entanto, o filme subverte esse pessimismo absoluto ao sugerir que, mesmo no fim, há continuidade, memória e recomeço.

Conclusão: Um Filme sobre o Fim - e sobre o Sentido

Presságio não é apenas um filme sobre o apocalipse. É uma obra sobre luto, fé, destino, paternidade e o medo humano diante da ausência de controle. Seu impacto não está na destruição espetacular, mas na pergunta incômoda que deixa ao espectador:

E se o fim fosse inevitável… o que você faria com o tempo que resta?

Ao unir ciência, religião, filosofia e psicologia, Presságio se consolida como um dos filmes mais ousados e existencialmente perturbadores do cinema de terror e ficção científica dos anos 2000 - um verdadeiro requiem para a ilusão moderna de controle absoluto.

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